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Como já foi mencionado previamente, às vezes um bebê faz um ecocardiograma fetal normal sob todos os aspectos, e após o nascimento o pediatra detecta um sopro no coração, o que traz uma grande preocupação para os pais e, ao mesmo tempo, gera um certo desconforto com relação ao exame realizado no pré-natal. As perguntas mais freqüentes são se aquilo não podia ter sido visto antes do nascimento, se o exame estava errado ou se o examinador “deixou passar” alguma alteração que não deveria, mas, principalmente, a questão que se impõe responder com urgência é “afinal, o que é que o meu bebê tem?”. Em primeiro lugar, é importante que fique claro o que é um “sopro”. Este termo não reflete um diagnóstico, uma doença, mas simplesmente um achado à ausculta cardíaca. Quando o médico escuta um ruído que está entre as bulhas, que são os ruídos de fechamentos das válvulas e que dão a seqüência tum-tac, tum-tac à ausculta (então, um ruído entre o tum e o tac), este ruído é chamado de sopro. As características dos sopros variam, desde um barulho que lembra o soar de uma corda de violão até o ruído de um jato de mangueira, de um vento, de uma vibração, etc. Estes ruídos podem ocorrer por fenômenos normais, não relacionados a qualquer doença, e sim a vibrações das estruturas elásticas do coração ou a uma velocidade sangüínea normalmente aumentada em determinado local (como, por exemplo, nas artérias pulmonares dos recém-nascidos) e, nesses casos, os sopros são chamados de inocentes. Os sopros inocentes não tem qualquer significado clínico e desaparecem em algum momento da vida da criança. Mas existem alguns problemas que também podem se manifestar pela ausculta de um sopro no período neonatal, em um bebê cujo ecocardiograma fetal foi normal. Um dos mais freqüentes exemplos desta situação, e que já foi comentado em duas ocasiões neste livro, é a presença de uma comunicação pequena entre os dois ventrículos, a chamada comunicação interventricular (ou, abreviadamente, CIV). Quando o orifício é mínimo, o fluxo entre as cavidades pode ser inexistente na vida fetal (sendo o ecocardiograma pré-natal normal) e surgir após o nascimento, quando a modificação das diferenças de pressão entre os ventrículos ocorre pela ativação do pulmão, que não era funcionante dentro do útero). Este fluxo entre os ventrículos costuma se fazer através de um jato de alta velocidade (tão maior quanto menor for o orifício), e isso gera um ruído (sopro) muito característico, facilmente detectado pelo pediatra. Outra causa de sopro, representando modificações do fluxo do sangue, em bebês recém-nascidos que tiveram um ecocardiograma fetal normal, são a persistência do canal arterial (ou ducto arterioso, ou ductus), que habitualmente se fecha logo após o nascimento, mas que às vezes persiste patente, com fluxo em seu interior, dirigindo-se da aorta para a artéria pulmonar, e gerando um ruído escutado como um sopro. A comunicação normal entre os átrios, na vida fetal, pode também persistir anormalmente no período pós-natal, e isso pode gerar alterações do fluxo escutadas como sopro. Uma outra situação de sopro em um bebê que não mostrou alteração ao ecocardiograma fetal, especialmente se precoce, é a presença de uma estenose valvular pulmonar mínima. Isso pode acontecer porque, no momento do ecocardiograma na vida fetal, havia pouca diferença de pressão entre o ventrículo direito e a artéria pulmonar, que aumentou com o decorrer da gestação e ficou evidente após o nascimento. Em qualquer uma dessas situações comentadas, não haveria como se prever uma anormalidade pós-natal, e, assim, o ecocardiograma fetal não poderia ser encarado como errado, inacurado, incompleto ou falho, representando esses achados apenas a limitação própria da técnica. De qualquer maneira, o aspecto mais importante a ser enfatizado é que estas situações são todas benignas, sem qualquer repercussão funcional, sem significado clínico, e com tendência de resolução espontânea em sua grande maioria. Se os pais estiverem cientes dessa possibilidade, não terão maiores sobressaltos se um sopro for escutado após o nascimento, quando o ecocardiograma fetal tiver sido normal, pois eles terão a garantia de que nenhum problema importante está ameaçando o bem-estar do seu bebê. A mesma certeza não pode ter a família que ouve do pediatra que será necessária uma avaliação cardiológica urgente porque um sopro foi escutado no recém-nascido, e ele não foi submetido, durante a vida fetal, ao exame que poderia te-los deixado tranqüilos.
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